1 agosto 2026 - 15:16
Arbaeen; Uma Mídia Humana na Era da Competição de Narrativas

No mundo dominado pelos veículos de comunicação da corrente hegemônica, o Arbaeen emerge como uma mídia humana e inteligente, alterando as equações de poder na batalha das narrativas. Ao produzir um capital social sem precedentes e fortalecer vínculos transnacionais, ele transcende o formato de um ritual tradicional. Esse movimento civilizador, ao resgatar a espiritualidade e a verdade, pode romper o cerco informativo imposto pelo sistema de dominação.

A Agência Internacional de Notícias Ahl al-Bayt (que a paz esteja sobre eles) — ABNA: O Arbaeen de Hussein (que a paz esteja sobre ele) não é apenas uma comemoração no calendário ou uma ocasião ritual na história do Islã; é a própria extensão de Ashura. Ao longo da história, este evento tornou-se um mecanismo para preservar a mensagem da revolta do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele), transmitir conceitos como a busca pela justiça, a liberdade, a espiritualidade e a responsabilidade moral, e reproduzir a memória coletiva dos muçulmanos. No mundo contemporâneo, a importância do Arbaeen adquiriu novas dimensões. Hoje, as sociedades humanas enfrentam fenômenos como a competição de narrativas, a expansão das mídias digitais, a crise de sentido, o individualismo extremo e o declínio dos laços sociais. Em tal contexto, o estudo do Arbaeen pode contribuir para uma compreensão mais profunda da dinâmica da religião, do papel dos rituais coletivos no fortalecimento da solidariedade social, da capacidade da comunicação humana e da possibilidade de uma representação ética da verdade no espaço público. O Arbaeen pode ser analisado em quatro níveis: primeiro, como uma extensão histórica de Ashura e um fator de preservação da memória coletiva; segundo, como um terreno para a produção de capital social e solidariedade transnacional; terceiro, como uma mídia humana, participativa e em rede; e quarto, como uma oportunidade para a explicação racional, ética e atualizada da mensagem de Hussein no mundo contemporâneo.

1. A Extensão Histórica de Ashura e a Formação da Memória Coletiva

O intervalo entre Ashura e o Arbaeen não foi apenas um período para o luto emocional; foi uma etapa decisiva na elucidação da verdade de Karbala e na prevenção da distorção da mensagem de Ashura. Nesse período, o papel de Zainab, a Grande (que a paz esteja sobre ela), e do Imam Sajjad (que a paz esteja sobre ele) foi fundamental e decisivo. Com seus discursos, esclarecimentos e o relato da verdade do evento, eles impediram que Ashura se tornasse um incidente limitado, silencioso e confinado à geografia de Karbala. Se observarmos esse período com a linguagem da ciência da comunicação contemporânea, podemos considerar as ações esclarecedoras de Zainab (que a paz esteja sobre ela) e do Imam Sajjad (que a paz esteja sobre ele) como um exemplo histórico de enfrentamento ativo da "crise da narrativa". Após qualquer grande evento histórico, surge sempre a questão de quem moldará sua narrativa e como a registrará na memória coletiva. Na história de Ashura, a questão central não foi apenas a ocorrência do evento, mas a explicação de seu significado e a prevenção da distorção de sua verdade. O Arbaeen ganha sentido a partir desse ponto. Esta ocasião não é apenas a lembrança do quadragésimo dia do martírio do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele), mas também o símbolo da continuidade da narrativa de Ashura e da preservação de sua mensagem na memória histórica da comunidade islâmica. O Arbaeen recorda aos muçulmanos que a revolta de Hussein não é apenas um evento histórico triste, mas carrega uma mensagem duradoura sobre justiça, dignidade humana, servidão a Deus e resistência ao desvio da verdade.

A memória coletiva, nas sociedades religiosas, não se preserva apenas através de livros e documentos históricos; os rituais, as cerimônias, as peregrinações, os lutos, as narrativas orais e as experiências compartilhadas também desempenham um papel em sua continuidade. O Arbaeen, desse ponto de vista, é um dos mais importantes veículos para a permanência da mensagem de Ashura na cultura islâmica, pois, a cada ano, transpõe essa mensagem do nível da memória histórica para o nível da experiência vivida e da participação coletiva.

2. O Arbaeen e a Produção de Capital Social

Uma das dimensões sociológicas mais importantes do Arbaeen é a produção e o fortalecimento do capital social em larga escala. Capital social refere-se a um conjunto de confiança, cooperação, ajuda mútua, participação voluntária e redes de comunicação que aumentam a capacidade de ação coletiva em uma sociedade. O Arbaeen, sob essa perspectiva, é um exemplo notável da formação de capital social no contexto de um ritual religioso. Na procissão do Arbaeen, milhares de tendas (mawakib), grupos de voluntários, famílias anfitriãs e instituições culturais e sociais atuam lado a lado. Serviços como alojamento, alimentação, atendimento médico, orientação, tradução, educação, programas culturais e apoio aos peregrinos são apenas algumas das manifestações dessa ampla participação. O ponto importante é que grande parte desses serviços é voluntária, baseada em motivações religiosas, éticas e humanas. Essa participação voluntária fortalece a confiança social. Os peregrinos, ao longo do caminho do Arbaeen, deparam-se com uma rede de hospitalidade, generosidade, serviço e empatia que, em muitos casos, vai além das relações formais e institucionais. Tal experiência pode aumentar o sentimento de pertencimento, solidariedade e responsabilidade mútua entre indivíduos e grupos diversos.

O Arbaeen também tem uma importante capacidade de reduzir as distâncias étnicas, linguísticas e nacionais. A presença de peregrinos de diversos países, a participação de xiitas, sunitas e até mesmo de não-muçulmanos interessados, e a formação de diálogos humanos ao longo do percurso mostram que a mensagem do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele) pode ser compreendida num nível que transcende fronteiras geográficas e religiosas. Essa característica torna o Arbaeen um espaço para a experiência prática da empatia e da comunicação intercultural. Especialmente nas relações culturais entre os povos do Irã e do Iraque, o Arbaeen tem desempenhado um papel significativo na expansão do conhecimento mútuo, na redução de mal-entendidos históricos e no fortalecimento dos laços religiosos e sociais. A ampla hospitalidade do povo iraquiano e a presença de peregrinos iranianos, juntamente com peregrinos de outros países, criam um tipo de experiência compartilhada de fraternidade religiosa e dignidade humana. Dessa perspectiva, o Arbaeen pode ser considerado um dos exemplos mais importantes de solidariedade social voluntária no mundo contemporâneo; uma experiência que demonstra que os rituais religiosos, quando aliados à ética, ao serviço e à participação, podem desempenhar um papel eficaz na reconstrução dos laços humanos e sociais.

3. O Arbaeen como Mídia Humana e Participativa

Nos estudos de mídia, o conceito de mídia não se limita a ferramentas técnicas como televisão, jornais, sites de notícias ou redes sociais. Qualquer mecanismo que possa transmitir significado, mensagem e experiência compartilhada pode ter função midiática. Dessa perspectiva, o Arbaeen pode ser considerado um tipo de "mídia humana, viva e participativa". Por mídia humana no Arbaeen entende-se uma rede de pessoas presentes e atuantes que, por meio de sua presença, movimento, fala, serviço, símbolos, rituais, narrativas e produção de conteúdo digital, transmitem a mensagem de Ashura. Nessa mídia, as pessoas não são apenas audiência; elas mesmas se tornam produtoras e transmissoras da mensagem.

Nos meios de comunicação tradicionais, a mensagem geralmente é enviada de um centro definido para um grande número de receptores. Mas no Arbaeen, o processo de transmissão da mensagem é em rede e multidirecional. Cada peregrino, cada anfitrião, cada servidor, cada fotógrafo, cada escritor, cada propagador e cada usuário do ciberespaço pode ser parte do processo de produção e difusão de significado. Essa mídia humana atua através de múltiplos canais:

  • A presença física de milhões de peregrinos num movimento coletivo;

  • O uso de símbolos, bandeiras, slogans e rituais compartilhados;

  • Os diálogos face a face entre peregrinos de diferentes culturas e línguas;

  • A experiência do serviço, da hospitalidade, da generosidade e da cooperação ao longo do percurso;

  • A produção e disseminação de fotos, vídeos, relatos, notas, narrativas pessoais e conteúdo multimídia no ciberespaço;

  • A representação popular e informal da experiência do Arbaeen nos níveis local, nacional e transnacional.

Como resultado, o Arbaeen não é apenas tema para a mídia, mas ele próprio é um tipo de mídia. Uma mídia cuja mensagem não é transmitida apenas através de palavras, mas através da experiência vivida, da participação humana, da presença coletiva e da ação ética. É precisamente essa característica que torna o Arbaeen um campo importante e digno de reflexão para pesquisadores da comunicação, das novas mídias e dos estudos religiosos. Na era da competição de narrativas, a importância de tal mídia é duplicada. Muitos eventos religiosos e culturais podem não ser devidamente vistos ou podem ser representados de forma incompleta pelos meios de comunicação oficiais ou globais. Mas o Arbaeen, devido à sua estrutura participativa e em rede, possibilita uma narrativa de baixo para cima — ou seja, o próprio povo e os peregrinos tornam-se os principais narradores da experiência da qual participam.

4. Arbaeen, Explicação Religiosa e a Responsabilidade da Jovem Geração

A revolta de Hussein não foi apenas um movimento político ou social no sentido restrito do termo; ela também teve uma missão cognitiva, ética e de orientação. Seu objetivo era despertar a consciência humana, eliminar a ignorância, revelar a verdade e restaurar a sociedade ao caminho da servidão a Deus e da dignidade humana (1). No mundo de hoje, um dos principais campos de confronto entre a verdade e a distorção é a arena das narrativas e da mídia. As crenças, atitudes e julgamentos de muitas pessoas, especialmente da jovem geração, são moldados no espaço midiático e nas redes sociais. Por isso, a explicação correta, precisa, ética e racional dos ensinamentos de Ashura e do Arbaeen é uma necessidade séria.

Explicação religiosa, neste sentido, não significa apenas repetir slogans ou transmitir informações. Explicar é esclarecer a relação entre uma verdade religiosa e as perguntas, necessidades e problemas do ser humano contemporâneo. Portanto, se a mensagem do Arbaeen deve ser compreensível e impactante para a nova geração, ela deve ser expressa numa linguagem precisa, fundamentada, ética e adequada ao ambiente intelectual do interlocutor. Os jovens, estudantes, estudiosos, professores, ativistas culturais e usuários conscientes do ciberespaço podem desempenhar um papel neste campo. Eles podem contribuir para a transmissão correta da mensagem de Ashura através da produção de conteúdo de qualidade, narrativas documentadas, análises concisas, diálogos amigáveis, respostas a perguntas e a representação dos aspectos humanos do Arbaeen. Neste caminho, é essencial atentar para alguns pontos:

  • Conhecimento preciso do interlocutor e evitar uma linguagem clichê;

  • Utilizar argumentação, lógica e fontes confiáveis;

  • Atentar para as perguntas reais da nova geração;

  • Utilizar criativamente novos formatos midiáticos;

  • Evitar exageros, distorções e emoções sem fundamento;

  • Narrar as belezas éticas, humanas e espirituais do Arbaeen;

  • Responder às dúvidas com calma, respeito e argumentação.

Assim, o Arbaeen pode ser uma oportunidade para a conexão entre fé, racionalidade, ética e mídia, desde que sua explicação transcenda o nível da propaganda superficial e se converta num diálogo profundo com a consciência e o pensamento do ser humano contemporâneo.

5. A Ética Midiática na Explicação da Mensagem do Arbaeen

Embora a explicação da mensagem de Ashura e do Arbaeen seja uma tarefa importante e valiosa, essa tarefa deve ser acompanhada por princípios éticos. A verdade não pode ser promovida com ferramentas incorretas. A mensagem de Hussein é uma mensagem entrelaçada com sinceridade, dignidade, liberdade e ética; portanto, a maneira de explicá-la também deve estar em harmonia com esses valores. No campo da mídia e do ciberespaço, por vezes a velocidade de disseminação da mensagem, a competição midiática e as emoções coletivas fazem com que alguns ativistas culturais se afastem do rigor, da imparcialidade e da ética. Isso pode prejudicar a própria mensagem. Se a explicação religiosa vier acompanhada de mentiras, calúnias, humilhação, violência verbal ou descuido, não apenas perde seu efeito educativo e cognitivo, mas pode se transformar no seu oposto. Os princípios mais importantes da ética midiática na explicação do Arbaeen são:

  • Verdade e fidelidade na transmissão: Toda narrativa, imagem, estatística ou análise deve ser, na medida do possível, documentada e confiável. O uso de notícias falsas ou imagens fora de contexto, mesmo com boa intenção, prejudica a credibilidade da mensagem.

  • Evitar insultos e humilhações: A linguagem da explicação deve ser respeitosa. O interlocutor, mesmo que seja questionador ou crítico, deve ser tratado com dignidade humana.

  • Argumentação em vez de emocionalismo: Os sentimentos religiosos são valiosos, mas no espaço científico e midiático devem vir acompanhados de análise, lógica e fundamentação.

  • Conhecimento do interlocutor: A linguagem do diálogo com um adolescente, um estudante, um pesquisador, um interlocutor não-muçulmano ou um crítico não é a mesma. A explicação eficaz requer o conhecimento do nível intelectual, das preocupações e da linguagem do interlocutor.

  • Combinar a verdade com a misericórdia: A verdade é mais impactante quando expressa com compaixão, imparcialidade e benevolência. A violência verbal, mesmo em defesa da verdade, pode distorcer a face da realidade.

  • Evitar exageros: Amplificações infundadas ou afirmações indemonstráveis reduzem a credibilidade científica e midiática do texto. A grandeza do Arbaeen não precisa de exageros; sua narrativa precisa e sincera é por si só a mensagem mais eloquente.

Portanto, o ativista midiático na área do Arbaeen deve atentar tanto para o conteúdo quanto para o método de transmissão. Na lógica de Hussein, o objetivo sagrado não é licença para o uso de ferramentas incorretas. A mensagem do Arbaeen será duradoura e penetrante quando expressa com sinceridade, ética, racionalidade e beleza.

6. Arbaeen, Identidade Compartilhada e Horizonte Civilizacional

O Arbaeen, para além de suas funções individuais e espirituais, é um palco para a representação da identidade islâmica e humana compartilhada. A presença de pessoas de diferentes nacionalidades, línguas, etnias e confissões religiosas mostra que a mensagem do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele) tem uma capacidade que transcende fronteiras geográficas e culturais. Esta mensagem baseia-se em valores que são compreensíveis para a consciência humana: valores como justiça, dignidade, lealdade, abnegação, liberdade e espiritualidade. O lema "Al-Hussein Yajma'una" (Hussein nos une), sob essa perspectiva, não é apenas uma frase sentimental; é a expressão de uma experiência social e cultural. O Arbaeen mostra que o amor ao Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele) pode reunir pessoas de diferentes línguas, culturas e origens num mesmo caminho. Este encontro, se bem compreendido e gerido, pode contribuir para o fortalecimento do diálogo intercultural, da cooperação social e da empatia humana.

Por capacidade civilizacional do Arbaeen não se entende apenas a expansão de uma cerimônia ou o aumento do número de participantes. Capacidade civilizacional é a capacidade de um fenômeno religioso para produzir modelos estáveis e duradouros de vida em sociedade — modelos como o serviço público, a ética social, a cooperação, a hospitalidade, a ordem popular, a abnegação, a espiritualidade coletiva, a solidariedade transnacional e o respeito à dignidade humana. O Arbaeen pode inspirar novos modelos nas relações sociais. Uma sociedade em que servir ao outro é valorizado, a confiança social aumenta, diferentes grupos cooperam em torno de valores compartilhados e a espiritualidade tem uma presença construtiva na esfera pública, possui parte dos componentes de uma civilização religiosa e ética. Evidentemente, a realização dessa capacidade requer uma visão profunda, planejamento cultural, pesquisa científica, gestão ética e a superação da superficialidade. Se o Arbaeen for reduzido ao seu aspecto aparente e ritual, uma parte importante de sua capacidade cognitiva e social será negligenciada. Mas se for estudado como um fenômeno teológico, social, comunicacional e civilizacional, pode abrir novos horizontes na compreensão da relação entre religião e sociedade contemporânea.

Portanto, o Arbaeen de Hussein (que a paz esteja sobre ele) não pode ser analisado apenas no quadro de um ritual religioso anual. Este evento, no nível histórico, contribui para a preservação e reprodução da memória coletiva de Ashura; no nível social, é um terreno para a formação de capital social e solidariedade transnacional; no nível comunicacional, é um exemplo de mídia humana, viva e participativa; e no nível cultural, possui capacidades importantes para a representação de uma identidade religiosa e humana compartilhada.

A explicação correta da mensagem do Arbaeen no mundo contemporâneo deve ser feita com base na sinceridade, na racionalidade, em fontes confiáveis, numa linguagem ética e no conhecimento preciso do interlocutor. O Arbaeen só poderá ser impactante no espaço midiático atual se sua mensagem for expressa numa linguagem clara, lógica, afetuosa e adequada às necessidades intelectuais da nova geração.

Sob uma perspectiva teológica, o Arbaeen é a extensão da mensagem de Ashura; sob uma perspectiva sociológica, é o campo da manifestação da solidariedade e do capital social; sob uma perspectiva midiática, é um exemplo de comunicação humana e participativa; e sob uma perspectiva cultural, é uma oportunidade para repensar a relação entre fé, ética, sociedade e civilização. Desta forma, o Arbaeen não é apenas uma cerimônia anual, mas uma oportunidade para compreender novamente a mensagem do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele) no mundo de hoje; uma mensagem que, se bem compreendida, narrada e explicada, pode inspirar a resistência ética, o esclarecimento cognitivo, a solidariedade social e o movimento em direção a uma sociedade mais espiritual e mais humana.

Autora: Zainab Khatoun Shirinkar

Nota:

  1. A Ziyarat do Arbaeen, numa de suas passagens famosas, expressa a filosofia da revolta do Imam Hussein (que a paz esteja sobre ele) da seguinte forma: "Para salvar Teus servos da ignorância e do desnorteamento do desvio". Seyyed ibn Tawus, Iqbal al-A'mal, vol. 2, p. 590.

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